Meu Sertão Profundo

By 30 de janeiro de 2021 MEUS TEXTOS, MINHA VIDA, REFLEXÃO

Meu Sertão Profundo

A minha ascendência é basicamente sertaneja. Meu pai é pernambucano e minha mãe é mineira, eles se conheceram, constituíram vida e família no ambiente urbano de São Paulo, mas sempre carregaram as referências e influências de seus locais de origem. Eu cresci escutando histórias sobre a infância de meu pai, os lagos turvos onde ele nadava, as brincadeiras de criança no chão batido, a varanda da casa onde passou seus primeiros anos de vida – eu nunca conheci pessoalmente esses lugares, mas a minha imaginação esteve por lá muitas vezes. Em contrapartida eu sempre tive acesso físico, presencial, aos locais de infância onde minha mãe cresceu, onde perdeu seus pais e onde foi criada pelas suas irmãs e irmãos. Dessa forma as diversas histórias transmitidas a mim sobre a lamparina se apagando, sobre o balanço feito de arame no terreiro da casa, sobre o paiol onde se debulhava o milho sempre ganharam um contorno especial, pois estavam ali, de quando em quando, diante dos meus olhos ao alcance dos meus sentidos.

Ah, esse lugar geográfico, o cheiro do mato verde após um pé d’água, o gado entrando no curral, a galinha da Angola passando a poucos metros – sempre desconfiada, o fogão a lenha aceso e estalando, as carnes curtindo logo acima dele… Esse lugar donde os mais aguerridos tiram seu sustento e aqueles que não tem preguiça de trabalhar criam filhos, os enviam ao colégio e alguns viram até doutores. No final de semana tem a feira, lugar mágico, ponto de encontro de dialetos, faces, negociações, permutas, é onde a cultura do local se faz alvissareira, as vezes tem pandeiro, embolada, música raiz. Tem garapa escurinha no copo americano. É ali onde a dificuldade de um entristece a todos, onde o erro de uns serve de advertência para os outros, ali onde o sagrado nunca perdeu seu espaço e a fé mostra sua força sempre que é convocada.

Esse é o lugar geográfico que identifico como sertão, lugar do ritmo mais lento, dos dias mais longos e do sono mais limpo.

Agora, em minha vida urbana, tenho aprendido ao longo de muitos anos e fruto de muita reflexão a perceber o sertão profundo dentro de mim. São reminiscências desse lugar geográfico que habitam o lugar não geográfico dentro de cada um que carrega a terra fértil dentro de si. Tenho identificado e percebido esse sertão profundo, invisível, em todos que suspiram ao lembrar daquele lar distante, todos cujos olhos marejam ao escutar a viola pontilhando, todos que nutrindo a garra do povo da roça não negam serviço e seguem construindo uma cidade melhor, todos que de tempos em tempos fogem da urbanidade buscando o som de pássaros e o farfalhar das árvores no meio do mato. Todos que aquietam o ritmo ao se aproximar de uma estrada de terra, ali onde o asfalto já não existe.

É gente que se vê parada, pregada em frente a um jardim, perplexa diante de um Ipê em flor.

É esse sertão profundo que move destinos e impulsiona sonhos, em busca da utopia, a utopia do sitio vistoso no meio do nada, distante da urbe, canteiros bem feitos, pomar em tempo de colheita. Ah, quando a lida acabar, quando o suor esfriar, quando a rotina diária, de labuta, tiver o seu fim, assim quando os filhos crescerem e se formarem eu volto pra lá! O lugar que me espera, o abraço que me aguarda como alguém que correrá em minha direção e dirá, por onde você andou? Onde esteve durante todo esse tempo? Volto ao terreno rachado, sedento de água, volto sentindo a brisa com olor de pinheiros, volto como quem não quer nada, mas desejando ter tudo. Sertão que não morre, sertão que é dentro, o sertão que é mundo.

Rodrigo
Janeiro/2021